
Hoje sou eu o piano. De cauda. Mais não é que um seio estilizado. Sou mais que seio. Corpo. Inteiro. Teu. Sentas-te. Olhas-me. Repousas as tuas mãos neste corpo. Feito desejo. Em cauda. Docemente, cada dedo teu vai desenhando arabescos na pele. Do piano feito corpo. Corpo feito piano. Soltam-se os primeiros gemidos. Não de uma guitarra. Meus. Do piano. Fechas os olhos enquanto te perdes nos recônditos do meu corpo. Cálido piano. Arrancas-me silenciosas melodias num bailado de dedos, mãos. Piano, corpos. Uma sinfonia de sentidos. Teus. Meus. Não a 9ª. Essa, de Bethoveen. Esta, a única. O seu negro. Do piano. Confunde-se com a brancura do manto que me cobre. Branco e negro. Negro e Branco. Apenas o vermelho carmim dos lábios destoa. Entreabertos do desejo que corre. E escorre. Dos teus dedos enquanto bailam pelas teclas. Ou corpo. O meu. Vais descobrindo notas nunca antes inventadas. Não são Dó Ré Mi. Essas que tocas são desconhecidas de qualquer compositor. Compões tu. Só para mim. Descobertas na pele onde desliza a tua. Dos dedos. Puxaste o manto que esvoaçou pela janela até ao nosso jardim. De rosas. Descobres a pele acetinada do piano. Não. Do meu corpo. E teu. As notas sobem sem que te apercebas. A cauda do piano estremece. Gemidos rasgam silêncios como uivos de lobos. Os teus dedos correm velozmente pelas teclas. Pelo meu corpo. Feito piano. Mudaram de ritmo. Compassada(mente). Que sinfonia de prazer. Enquanto um suspiro de névoas, sonhos e alma desnudada se ergue naquela sala. Tu continuas a tocar o piano. De cauda. Ou seios estilizados. Correm dedos apressados de novo. É um mar revolto. Nuvens de tempestade. É a tua sinfonia. Nossa. Voa a partitura que tentaste seguir. Ficou perdida no meio da sinfonia (re)inventada. Abre-se a janela de par em par. Cortina que se rasga ao tentar alcançar o piano. Meu. Nosso. As rosas do jardim curvam-se perante a nossa sinfonia. Despetalando-se. Voam pétalas que cobrem este piano. Meu corpo. Tuas mãos. O vento uiva lá fora. Acompanha este final apoteótico. As teclas vibram debaixo dos teus dedos. Já não são brancas e negras. São de todas as cores. Pintadas por ti. Nós. As estrelas dividiram-se em mil pedaços. Tornaram-se cristais. Cobriram o jardim. Soou a última nota. Fechas o piano. Repousas a cabeça no seu negro. Na brancura de mim. Corpo. Feito piano. De cauda.
(escrito por Nina, eu suponho)
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